A sua cor provocou inquietação e proporcionou-lhe um destino fatal.

 O gato preto suscita o desprezo e o ódio das populações. A origem desta aversão é muito antiga. Psamético II, um dos faraós da XXVI dinastia (594-588 A.C.), mandara derrubar as estátuas dos usurpadores etíopes e lançou uma maldição sobre o etíope negro. A ideia perdurou até à Idade Média, altura em que os Etíopes foram comparados ao demónio.

O pavor do ano 1000 desencadeou a animosidade do clero sobre os gatos. Mais tarde, uma bula de Gregório IX, Papa entre 1227 e 1241, evoca o demónio com as feições de um gato negro cujas partes genitais seriam beijadas pela assistência antes de se entregar a uma orgia. Em 1307, o bispo de Coventry, tal como os templários da mesma época, foi acusado de ter venerado um gato preto durante a sua provação.

O corpo médico lançou uma maldição contra o gato preto. Um ilustre médico, Jerónimo Cardan, alterou os seus doentes contra os gatos negros, cruéis e audaciosos, pois, como tinham mau-humor, poderiam causar melancolia no ser humano. Vai ter inicio a era dos massacres de gatos.

O regresso das cruzadas e as epidemias de peste negra contribuirão para a consolidação da ideia de que o demónio estaria encarnado no corpo dos gatos. Essa imagem negativa persistiu ainda no século XV. Na Alsácia, contava-se que o diabo transportava os seus seguidores numa carruagem puxada por quatro gatos pretos.

No século XVII, na escócia, no decurso de uma cerimónia bárbara, o Taghairm ou “Ceia do Diabo”, os gatos eram empalados vivos e seguidamente queimados durante dois dias. Eram continuamente substituídos, de forma a que os seus miados agudos desencadeassem a aparição do diabo, a qual completava esta cerimónia funesta.

O cúmplice das bruxas

Associado às práticas de bruxaria, o gato despertou o ódio e a vingança

Ágil, noturno e silencioso, o gato tinha a capacidade de se introduzir clandestinamente no interior das casas. Suspeitava-se que praticava o mal e realizava atos de bruxaria. Sufocava as crianças no berço e quando os pais espancavam o animal maligno, as marcas e os ferimentos não apareciam no corpo do gato, mas sim no corpo de uma velha, que segundo as suas próprias confissões, se teria transformado em gato ou gata.

O gato tornou-se um ingrediente indispensável nas receitas elaboradas pelas bruxas, tendo sido usado em todos os tipos de poções. Preenchia-se a pele de um gato preto com cevada, trigo e aveia. Depois de preenchido, o animal era colocado numa fonte durante três dias. A pele era seca e seguidamente moída para obter um pó de efeitos terríveis.

Estas sementes, quando lançadas do alto de uma montanha num dia de muito vento, propagavam-se por toda a região. Esta ficaria devastada e a terra tornava-se estéril. Detestados e insultados, os gatos foram torturados e posteriormente queimados durante as festas tradicionais. Algumas cidades do norte de França e da Lorena, como Arras, Metz ou Ypres na Flandres, adquiriram a reputação felinófobas. Durante o solstício de Verão, os gatos eram atirados do alto de uma torre e lançados às chamas no meio de uma multidão exultante. Só os gatos pretos com manchas brancas escapavam ao holocausto de São João, porque neles se encontrava gravada a marca do anjo ou do dedo de Deus.

Em Metz, até 1733, era tradição sacrificar e queimar 13 gatos.

Em Ypres, estes cruéis rituais continuaram até 1817.

Um ser maléfico

Todos os seus poderes estavam concentrados na cabeça e na cauda.

A partir da Idade Média, a literatura estava repleta de exemplos que atribuíam ao gato uma panóplia de defeitos. Os provérbios, amplamente ilustrados na pintura flamenga, são a prova disso. Astuto, matreiro e traiçoeiro, é este o retrato que se destaca das narrações, pinturas e outras obras artísticas. O gato é caracterizado como hipócrita na pele da personagem Tiber do Romance da Raposa (Roman de renart – século XIII), apresentando-se crivado de defeitos sob as feições de Grippeminaud, no Pantagruel de Rabelais. Personificou também a imagem negativa da Justiça. O forro das togas envergadas pelos magistrados não era feito de pele de gato?

O poder maléfico do felino estava localizado na cabeça e na cauda. No século XV, uma crença alertou as jovens casadoiras para o perigo de pisar a cauda deste animal. Se tal acontecesse, não teriam qualquer hipótese de encontrar marido nesse ano.

Um conto literário da Sra. D’Aulnoy, datado de 1697, narra as desventuras de uma princesa que foi transformada em gata por uma fada malévola. Para libertar a jovem, o seu príncipe encantado teria de cortar a cabeça e a cauda do gato e seguidamente lança-las no fogo para eliminar para sempre as regiões do corpo onde se concentrava o mal.

Uma das tradições da região de Poitou era muito eloquente a este respeito. Segundo a lenda, quando Deus quis criar o gato, o Diabo disse-lhe: “faz o gato que quiseres, mas a cabeça será minha”. O abominável crânio do felino teria a particularidade de conter o cérebro, sede de estranhos poderes. Se por um lado a carne de gato era considerada um manjar delicioso, especialmente em Itália e Espanha, a mioleira não tinha qualquer valor: atuava como um veneno que enlouquecia. Quanto à cauda, esta era intrigante pela sua agitação incessante, mesmo durante o sono. Suspeitava-se que nela residia uma força estranha. Por essa razão, considerou-se que seria necessário eliminar esse verme, esse veneno, a serpente ou o cabelo do Diabo que seria responsável por aquela mobilidade perturbadora.